A
História da Cocaína
Os Primórdios de sua
Utilização:
A planta Erythroxylon Coca, comumente conhecida como Coca,
já era utilizada pelos índios da América do
Sul, como os incas, por exemplo, há milhares de anos. Eles
mascavam as folhas da planta, um hábito chamado
“coquear” e atribuíam à planta
propriedades mágicas e consideravam-na sagrada: acreditavam
que com ela, entravam em contato com deuses e espíritos, que
os protegiam.
A Utilizavam em rituais de nascimento, de iniciação
sexual, funerário, e como anestésico local, e seu
chá para curar dores de estômago.
Apesar de levada ao conhecimento europeu já nos primeiros
anos da colonização espanhola, por Américo
Vespúcio (1505), Fernandez de Oviedo (1535), e Nicholas
Monardes (1565); as folhas de coca não conseguiram
popularidade nesse continente de imediato, (provavelmente devido
à deterioração da planta durante o
transporte), permanecendo um costume indígena até
então. O interesse europeu pelas propriedades
farmacológicas da folha de coca apareceu com efusividade na
virada do século XIX: iminentes botânicos,
farmacêuticos, e médicos, atribuíram-lhe
denominações tais como “tesouro da
matéria medica”, “saudável e condutora da
longevidade”, “evocadora das potências do
organismo, sem deixar sinal algum de debilidade
conseqüente”.

Na década de 1880, a coca passou a circular por toda Europa
e América do Norte, sob forma de chá. O cultivo e
produção eram feitos no Peru, onde havia um
órgão do governo que controlava a coca licenciada
para a exportação farmacêutica, a Empresa
Nacional da Coca.
Comercialização:
No intuito de expandir os negócios, a Empresa Nacional da
Coca fez uma campanha dos benefícios da coca,
lançando uma bebida chamada “INCA HEALTH TEA”,
algo como “Bebida Saudável dos Incas”, que logo
se popularizou entre os norte-americanos e europeus. O chá
de coca era tido como um “melhorador de humor” e
então, começou a ser prescrito para dependentes de
cocaína.

Em meados do século XIX, aparecia no mundo outra bebida que
continha coca: era o vinho de coca. O seu criador, o
empresário Ângelo Mariani, desenvolveu o vinho de coca
para uma atriz deprimida, que obteve resultados fantásticos.
A bebida tornou-se popular entre várias personalidades: a
Rainha Victoria, William McKinley (presidente dos EUA), o Papa Pio
X, e o Papa Leão XII que chegou a conceder ao vinho Mariani
um selo oficial de aprovação e uma medalha de ouro ao
seu criador.

Já no final do século XIX, havia 69 tipos de bebidas
que continham cocaína em sua fórmula, e entre elas, a
mais conhecida até hoje: a Coca-Cola, criada por John
Pemberton, era vendida para o combate à cefaléia,
como tonificante, como ajuda no combate à dependência
de morfina, entre outros males. Com o advento da Lei Seca,
Pemberton substituiu o álcool da formula por noz de cola
(continente da cafeína), gaseificou a água e
anunciou-a como “a bebida dos intelectuais e
abstêmios”, uma garrafa de 6 onças da bebida
continha, em média, 2 miligramas de cocaína, e
só em 1901 a coca-cola a retirou de sua
fórmula.
A medicina adotou definitivamente a substância da coca,
após a obtenção do principio ativo puro,
isolado por Albert Nieman. Antes, o químico Gaedecke
já havia extraído um resíduo oleoso das folhas
de coca, ao qual denominou Eritroxilina.
As indicações da cocaína para tratamento das
dependências químicas, como estimulante incapaz de
danos secundários, ideal para exaltar o humor, espantar a
depressão e “deixar as damas em plenas de vivacidade e
charme”, foram publicadas nas principais revistas
médicas da época, na Europa e nos EUA. Suas
propriedades anestésicas foram utilizadas no tratamento de
dores de dente e garganta, em bloqueios anestésicos e abriu
uma nova fronteira nas cirurgias oftalmológicas. Era
utilizada pelas vias oral, nasal, ou por meio de
injeções intradermicas.

Entre 1880 e 1884 o Therapeutic Gazette publicou 16 relatos de cura
da dependência de ópio pela cocaína. Mas foi a
manografia de Sigmund Freud, “UBER COCA”, em 1884, que
sintetizou aquilo que vinha sendo falado e escrito pela comunidade
cientifica nas ultimas décadas. O trabalho do então
desconhecido cientista, elogiava a capacidade da substancia de
exaltar o humor, combater o “morfinismo” e o
“alcoolismo”, transtornos gástricos, caquexia e
a asma, além de ser afrodisíaco e anestésico
local.
Nessa longa exposição da coca, Freud conta sua
historia e seus usos, migração para a Europa, efeito
em animais, efeito no corpo humano e finalmente, os usos
terapêuticos da cocaína.
Por onze anos, Freud utilizou regularmente a cocaína em sua
forma de alcalóide, em pó, e defendeu seus
princípios ativos, até mesmo quando começaram
a aparecer evidencias de seus malefícios. Ele esperava curar
diabetes com cocaína e a experimentou em muitos amigos e
pacientes. Ele insistiu que dependência ou o abuso da
cocaína nunca fora reconhecido como um fenômeno em si,
mas em vez disso, que ocorria entre pessoas que haviam sido,
anteriormente, dependentes da morfina e que se fosse usada por um
longo período, mas moderadamente, não seria
prejudicial ao corpo. Freud concluiu que a cocaína
não tinha ação direta nos sistema
neuromuscular, podendo, porem, atuar sobre ele, em certas
circunstâncias, quando melhorava o bem-estar
geral.
O Outro Lado da Coca:
Em desacordo com a tese de Freud, o tempo revelou os
malefícios da cocaína em seus consumidores: sintomas
psicóticos e depressivos, insônia e relatos de abuso e
dependência, onde o consumo era classificado por seus
usuários como uma “tentação
irresistível”, golpearam os elogios incondicionais que
a substancia vinha recebendo ate aquele período. Por volta
de 1900, pelo menos 400 casos agudos ou crônicos de danos
físicos e mentais relacionados à cocaína
já haviam sido publicados na literatura medica. Por volta de
1905, o consumo inalado da cocaína já era bastante
difundido nos EUA, e o primeiro caso de lesão da mucosa
nasal foi publicado pela literatura médica em 1910. As
sociedades médicas, no inicio partidárias, e depois
convertidas em ferozes opositoras da cocaína, passaram a
criticar sua venda pela indústria farmacêutica,
afirmando que esses haviam promovido a substância de uma
maneira irresponsável e não
científica.
A partir da segunda década do século XX, observou-se
no início um declínio no consumo da cocaína
nos EUA e na Europa até atingir níveis
insignificantes. Para tal, alguns fenômenos foram
determinantes: o fortalecimento do puritanismo e da ideologia
proibicionista nos EUA, culminando no aparecimento de leis
restritivas e punitivas, que baniram a cocaína e a
heroína do mercado livre, controlaram as
importações desses produtos, e perseguiram os
médicos que prescreviam tais substâncias. A
depressão econômica que se estendeu até os anos
40, deixando menos dinheiro para gastos supérfluos. O
surgimento, na Europa, de medidas sócio-educativas e de
saúde publica, visando à prevenção e ao
tratamento desses pacientes. E por fim, a anfetamina, um novo e
potente estimulante de longa duração, foi sintetizada
em 1932 e era mais barata que a cocaína.

Os movimentos contraculturais beat e hippie, dos anos 50 e 60,
usavam a cocaína como forma de percepção,
contestação e saída do sistema
autoritário em que viviam. Durante esse tempo, a
cocaína era considerada uma droga leve, incapaz de causar
sintomas de dependência física e por isso foi pouco
visada num primeiro momento
.
A maioria dos músicos da época eram usuários
de drogas. A principal representação musical era o
rock, e das bandas que surgiram na década de 60, quase todas
tiveram contato com a cocaína. A música e a droga
tinham uma ligação muito íntima. Muitos
músicos se drogavam para compor. Em shows tanto banda como
público estavam sobre efeito das drogas.

O álbum “Sg.t Peppers Lonely Hearts Club Band”
dos Beatles, considerado um dos marcos na história da
música, foi inteiro composto, produzido e gravado sobre os
efeitos da cocaína e do LSD.
O consumo da cocaína voltou a aparecer em grande quantidade
nos anos 70, até então o consumo se manteve bastante
marginalizado, e um dos fatores para seu ressurgimento em grande
escala foi que os EUA estavam concentrados na repressão
contra outras drogas que naquela década estavam em maior
evidência, como a anfetamina, o que permitiu que outras
substâncias circulassem pelo país livremente. Outro
fator determinante da época foi a
profissionalização do narcotráfico colombiano,
que aumentou a disponibilidade da droga e diminuiu seu
preço.

Uma parcela sempre crescente dos jovens continuou fascinado pelas
drogas, Christiane F., por exemplo, uma jovem que aos 13 anos
já era dependente de cocaína e heroína, e que
mais tarde escreveu um livro contanto toda essa sua
experiência (Christiane F. 13 anos, Drogada e
Prostituta).
E a cocaína acabou por se transformar em indicadora de
status. O pó conseguiu inclusive tirar da droga a
característica contestatória que ela havia ganhado
com a maconha e as experiências lisérgicas da
década de 60. Virou presença indispensável e
indisfarçável nas festas sofisticadas, subiu
às coberturas e esteve no fundo de mármore das
piscinas particulares.

Desse modo a cocaína se apresentou nos anos 80 como um
estimulante relativamente inócuo e eminentemente urbano. O
alto custo inicial da substancia, sua reputação de
droga das elites conferiram-lhe uma imagem de algo
desejável. O estilo de vida de uma nova
geração, nascida durante os anos efervescentes do
movimento hippie, mas ideologicamente oposta a esse, estava
associado à cocaína: os Yuppies (Young Urban
Professional, algo como jovens profissionais urbanos). Eram pessoas
bem sucedidas e com eles, o consumo de cocaína inalada era
visto como provedor de energia, auto-estima e ambição
social, atributos para esses jovens executivos.
Nos anos 80, a cocaína atingiu extratos sociais mais baixos,
e faixas etárias cada vez menores, e com preço mais
acessível que chegou a custar 250% menos, no final da
década.

Em meados da década passada a sociedade teve contato com o
"crack". Denominado de "pedra" pelos usuários em nosso meio,
é consumido por "via" fumada. A pedra unitária tem
preço mais acessível, promovendo a impressão
que o usuário economiza quando troca o consumo do pó
pela pedra. Grande ilusão: a "pedra" tem quantidade
mínima de substância ativa, muito menor do que o
pó; seus efeitos, porém são mais pronunciados
pela liberação da cocaína diretamente na
corrente sangüínea através dos pulmões.
Reputado como "uma nova droga" o crack não passa de um novo
método de consumo de uma droga muito antiga. Próximo
às áreas de produção, entretanto, uma
outra forma de fumar a cocaína, há muito era
utilizada: a pasta-base. Esta é uma mistura das folhas com
solventes químicos, que apresenta enorme toxicidade (40% de
impurezas).
Uma outra forma de fumar a cocaína é conhecida
em várias regiões do Brasil com o nome de Méla
ou Merla. Esta é mais tóxica ainda que a pasta base,
sendo que as complicações médicas são
ainda mais precoces no curso do uso da cocaína. Outra forma
ainda que o organismo absorve a cocaína é
através de mucosas. As complicações
médicas deste consumo são imprevisíveis e
freqüentemente letais.

Atualmente, a cocaína e seus derivados, independente de
serem legalizados, ou não, são comercializados em
todos os continentes e seus consumidores crescem a cada dia. O
Brasil, por exemplo, tem cerca de 860 mil usuários de
cocaína, o que estima um documento da
Organização das Nações Unidas (ONU).
Segundo o relatório anual do Escritório das
Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC), 0,7% da
população brasileira entre 15 e 64 anos utilizava
cocaína em 2005. 
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